O mercado de alto padrão revela seus movimentos. Nós traduzimos em inteligência estratégica.

O último trimestre de 2025 encerra um ano marcado pela reconfiguração das políticas comerciais nas principais economias, refletindo a necessidade de adaptações diante de um cenário global mais pressionado. A persistência da inflação como fator restritivo à sustentabilidade do crescimento global, aliada a reconfiguração dos fluxos comerciais, ocorreu num contexto de intensificação dos riscos geopolíticos para além do leste europeu. O conflito iniciado em 2022 nesta região ainda está limitado no avanço das negociações diplomáticas para um acordo de paz e tem contribuído para aumentar a incerteza geopolítica, refletindo a complexidade assimétrica entre os interesses estratégicos e os custos  envolvidos. Para 2026, a menor possibilidade de expansão do envolvimento de outros territórios e o ajuste de interesses econômicos entre os países, tende a elevar a aversão ao risco nos mercados, podendo se traduzir em episódios de alta volatilidade ao longo do ano, ao mesmo tempo em que reforça seletividade nos investimentos, ainda que de forma heterogênea entre os blocos.

O bloco Europeu, apesar do crescimento moderado, encerrou o ano com desempenho relativamente melhor no setor de serviços em comparação à atividade industrial, que se mantém mais dependente da importação de insumos. A melhora do consumo interno, ainda que tímida, mostrou-se mais consistente no fechamento do quarto trimestre como reflexo do leve recuo nas taxas de juros e com ligeira melhora nas condições de crédito. Diante de desafios comerciais mais relevantes para o próximo período, o bloco poderá encontrar algum impulso econômico na expansão de produção de equipamentos de defesa e no setor da construção em infraestrutura. Ainda que não haja perspectivas de mudanças significativas na política monetária do BCE (Banco Central Europeu), os principais obstáculos permanecem relacionados à taxa de desemprego e elevada dependência de combustíveis fósseis em contraste com os compromissos multilaterais no âmbito das agendas de transição energética. Condições macroeconômicas mais favoráveis ao estímulo do consumo interno e à recuperação da produção industrial poderão impulsionar a economia do bloco no próximo período. No mercado imobiliário, os resultados foram heterogêneos, mas de forma geral houve aumento real nos valores dos imóveis. Em Portugal, por exemplo, as vendas residenciais cresceram 20% em relação ao mesmo período em 2024 e a ampliação da oferta pode se tornar atraente para os investidores, diante das expectativas de flexibilização do governo para estimular novas construções destinadas ao segmento de locações. Na Alemanha e outros países do bloco o crescimento foi mais modesto, porém resiliente frente às condições de financiamento. Em 2026, o mercado deverá se adaptar com maior rapidez às variáveis que afetam diretamente os custos operacionais, uma vez que a exigência de certificação de eficiência energética tende a ganhar maior peso no desenvolvimento e financiamento do novo estoque, com impacto relevante na valorização dos ativos imobiliários.

Nos EUA, a elevação das tarifas de importação gerou efeitos fiscais positivos no curto prazo, contribuindo para a redução do déficit fiscal, porém manteve a inflação acima da meta e reforçou sinais de desaceleração econômica. Ainda assim, a atividade segue resiliente, sustentada pelo consumo das famílias e por uma leve queda da taxa de desemprego. O Federal Reserve continua fortemente pressionado para iniciar o corte de juros, mas qualquer movimento dependerá do equilíbrio entre o desempenho da economia doméstica e da capacidade de conter a inflação sem provocar recessão. No mercado imobiliário residencial em geral, o quarto trimestre fechou com ligeiro aumento do número de negócios em comparação ao trimestre anterior,  favorecido pela estabilidade dos preços, demanda moderada e estoque que segue pressionado, em razão das taxas hipotecárias. Os impactos das medidas mais recentes do governo para reduzir as taxas e estimular o setor, como a compra do volume de títulos das hipotecas, ainda não podem ser mensurados. O segmento de alto padrão, por sua vez, surpreendeu positivamente em algumas cidades, evidenciando o apetite dos compradores e investidores, com destaque para o crescimento da participação das aquisições realizadas sem financiamento. Em 2026, os analistas projetam que o ciclo mais difícil do imobiliário está mais próximo do fim e que a retomada progressiva das vendas ocorra à medida que a oferta volte ao mercado sob condições de negociação e financiamento mais favoráveis.

A China  encerrou o ano com balança comercial positiva, apoiada no desempenho mais forte do primeiro semestre. No segundo semestre, o aumento das tarifas comerciais passou a pressionar o comércio exterior e impulsionou ajustes estratégicos voltados à diminuição da exposição ao mercado americano. Enquanto parte relevante dos esforços do governo esteve concentrada no mercado externo, a economia doméstica seguiu enfrentando desafios, refletidos no fraco consumo e no prolongado ciclo de ajuste do mercado imobiliário, cuja contribuição para o crescimento  no PIB tem sido cada vez mais limitada. O desempenho industrial continuou sustentado pelos subsídios governamentais e pelo plano de renovação da infraestrutura urbana que busca, em parte, compensar o encolhimento do setor imobiliário. Nesse segmento, os preços das novas residências recuaram, as vendas registraram forte queda e o tempo médio de exposição dos imóveis no mercado secundário aumentou para cerca de 22 meses, com descontos expressivos em algumas localidades. Na nova formulação estratégica para os próximos cinco anos, o governo pretende restaurar a confiança do consumidor por meio de maior rigor nos critérios de financiamento e entrega das obras através de instrumentos de controle mais efetivos, além da ampliação do programa de habitação social voltado à proteção de grupos mais vulneráveis.

No contexto doméstico, o resultado negativo da balança comercial sob os efeitos decorrentes do aumento tarifário incidente sobre as exportações destinadas ao mercado americano foi parcialmente compensado pela intensificação das relações com outros blocos, especialmente Ásia, Europa e Mercosul. Ainda que esse movimento tenha se concentrado no segundo semestre do ano, a maior diversificação dos parceiros comerciais contribuiu para o fortalecimento das relações entre estes blocos, minimizando estes impactos negativos da dependência em um único mercado. No âmbito macroeconômico, houve encolhimento do PIB (Produto Interno Bruto) no fechamento do último trimestre do ano e a taxa de desemprego recuou ao menor nível da série histórica, intensificando as pressões sobre o mercado de trabalho, os custos dos insumos e a inflação dos serviços. Neste ambiente, a manutenção da taxa Selic no maior patamar desde 2006, restringiu a produção industrial, o consumo das famílias e aumentou os custos dos serviços, ainda que dentro das expectativas de acomodação da inflação. No mercado imobiliário, a produção de empreendimentos residenciais restringiu a diversificação de produtos, ao mesmo tempo que evidenciou o bom desempenho do alto padrão. Ao longo de 2026, a expectativa de flexibilização gradual da taxa de juros poderá destravar parte da demanda reprimida em outros segmentos. Ainda assim, projetamos a continuidade da resiliência no alto padrão, tanto na expansão em bairros de maior absorção quanto em novos eixos de interesse das incorporadoras, reforçando seu posicionamento como ativo de melhor relação risco-retorno.

Denise Ghiu

Chief Data Officer

Bossa Nova Sotheby's International Realty

Sobre o Snapshots

Esta é uma publicação pioneira sobre o mercado de alto padrão que tem por objetivo oferecer aos nossos clientes e empresas do setor um cenário mais abrangente sobre os principais acontecimentos que podem ajudar a decisão do proprietário, do comprador e dos investidores através da viabilização dos dados e análises sintéticas sobre os negócios concretizados, anúncios, lançamentos e locação nos bairros mais nobres na cidade de São Paulo.

Boa leitura!